Quero iniciar este artigo
com o trecho de um poema do poeta sírio Nizar Qabbany: “Oferecemos as rosas às nossas amantes e serramos o pescoço de nossas
irmãs com uma serra. [...] Nós, os homens, somos o resumo do egoísmo, da paixão
de possuir e do feudalismo. Nós somos a mentira que anda sobre dois pés e a
ambição sem escrúpulos que anda sobre quatro”. Acredito que temos nessas
poucas palavras um resumo das características de uma cultura onde a mulher não
passa de um objeto que pode ser possuído, desfrutado, destruído e desprezado a
qualquer hora e a qualquer momento.
Confesso que uma das
coisas que me deixa indignado e com medo (na maioria das vezes) é a superabundância
de frieza entre os próprios seres humanos. Já cheguei a escutar tal frase, por
exemplo: “O que interessa o estupro dessa moça indiana? Algo que foi do outro
lado do mundo?” RETARDADO! Por acaso esta violência não acontece em nosso país?
Em nossa cidade? Em nosso bairro? Até mesmo em nossa rua? O caso da indiana que foi estuprada por seis
homens é de comover qualquer um, seja homem ou mulher. Uma vida que foi
sufocada por ‘pessoas’ que nasceram de uma mulher. Será que esses homens teriam
a coragem de estuprar suas irmãs e mães? É só olhar para o poema acima e
encontramos a resposta. Apesar de ser da cultura local o machismo, o ato de
observar a mulher como um objeto, uma propriedade, quero refletir e esclarecer
justamente sobre este problema que é o tema do nosso artigo: Estupro e Pena de
morte: O que a Igreja diz?
Primeiramente, vamos
entender e perceber o que diz o CIC (Catecismo da Igreja Católica) no verbete
estupro. No nº 2356 diz que “o estupro
designa a penetração à força, com violência, na intimidade sexual de uma
pessoa. Fere a justiça e a caridade. O estupro lesa profundamente o direito de
cada um ao respeito, à liberdade, à integridade física e moral. Provoca um dano
grave que pode marcar a vítima por TODA
A VIDA.” Em um estupro, além
da penetração a força na vítima, sempre se segue com outros atos violentos como
socos e pontapés. Mas, no caso da indiana foi pior, ter uma barra de metal
introduzida em sua vagina perfurando os órgãos internos e trazendo-os para fora
do seu corpo. Para quem sente o peso de um ato macabro desse, pode obter a
sensação de revolta, ódio; e querer pagar do mesmo modo a esses seres. Cometer
justiça com as próprias mãos não é a melhor saída, e sim, deixar que a justiça
civil, utilizando a virtude da justiça, faça com que esses seres sofram as
consequências dos seus atos premeditados.
Segundo notícias, o povo
pede para que seja dado aos seis, pena de morte. Mas, a Igreja? O que ela diz
sobre a pena de morte? No CIC encontramos a solução para essa questão. No nº
2267 diz que “se os meios incruentos
bastarem para defender as vidas humanas contra o agressor e para proteger a
ordem pública e a segurança das pessoas, a autoridade se limitará a esses
meios, porque correspondem melhor às condições concretas do bem comum e estão
mais conformes à dignidade da pessoa humana”.
Devemos lembrar que
diante de fatos concretos e utilizando a virtude da prudência é possível salvar
futuras vidas. Quem garante que estes seres não farão isso com outras mulheres?
Sejam elas familiares ou não? É só fazer uma pesquisa e olhar como era a relação
de Jesus com as mulheres. Uma relação de amor, carinho, atenção, confiança,
olhava nos olhos delas e via uma pessoa/humana, não um objeto. Jesus foi um
homem que desafiou uma cultura machista para mostrar que é necessário reler o
que está em nossa volta, reler as leis, as normas, os mandamentos. O que era
desprezado, agora é trazido para o centro.
Além de Jesus quero
ressaltar o santo Gregório de Nazianzo que diz: “Por que tratam a mulher com dureza, enquanto permitem tudo ao homem? A
mulher que comete um ato de adultério, a lei a castiga com severidade, enquanto
o homem que engana a própria mulher não recebe nenhum castigo. Eu não aceito
essa Lei e não admito esses costumes. Os que fizeram a Lei são homens (machos).
Por isso, ditam as suas Leis contra a mulher.” Este santo do século IV
depois de Cristo, mostra aqui, seguindo os ensinamentos de Cristo a ter uma
visão diferente sobre as leis que desprezam as mulheres e ter a coragem de ir
‘contra’ a sociedade que faz de tudo para viver presos no passado.
O estupro dessa moça é um
entre milhões de estupros que acontecem em nosso mundo, estupro contra mulheres
e crianças que não podem se defender. Estupros que acontecem nos terrenos
baldios dos bairros das cidades ou até mesmo dentro das próprias casas de pai
ou padrasto para filhos (as). O que vale mais: Uma cultura machista que estupra
e mata vidas ou a preservação da vida humana?
O padre Emile Eddé no seu
livro Jesus Libertador da mulher diz
que “Jesus percebeu nelas confiança,
sinceridade, honestidade e grande aceitação. [...] O pensamento da mulher
possui seu centro vital no coração [...] a doçura e a delicadeza de um
contrapõe à secura e à dureza do outro” (p. 62). Jesus que é o amor encarnado,
mostra na prática que preconceito, rejeição, desprezo em relação a um ser
humano não é algo que está em seus planos. Pessoas que fazem isso ainda não
entenderam que Deus é amor. Foi para
mexer com o machismo que Deus sabiamente utilizou uma mulher, um ser que não
era ouvido pelos homens, para trazer à humanidade a Salvação. Por isso que no
trecho do Magnificat, oração que São Lucas colocou na boca de Maria, a Mãe de
Deus encontramos uma triângulo hierárquico colocado de cabeça para baixo:
“derrubou dos seus tronos os poderosos e elevou os humildes” ( Lc 1, 52). O que
era desacreditado e visto como objeto, agora é crido e visto como um ser humano
que tem sentimentos e sensibilidade para acolher coisas que os homens não
conseguem captar. Como diz a última frase do filme A fonte das mulheres: “A
divina fonte das mulheres não é água, mas, a fonte das mulheres é o amor”.
Artigo criado
pelo seminarista David Angelo Oliveira Rocha, aluno do 4º ano de Teologia no
Seminário Maior Nossa Senhora da Conceição em Aracaju-SE.




